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12/08/2009

Anos.

Filed under: Uncategorized — myself1985 @ 4:43 am

ANIVERSÁRIO.

 No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, e a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

 No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, de ser inteligente para entre a família, e de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, o que fui de coração e parentesco. O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino,

O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui… A que distância!… (Nem o acho…)

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes… O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), o que eu sou hoje é terem vendido a casa, é terem morrido todos, é estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos… Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!

Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, por uma viagem metafísica e carnal, com uma dualidade de eu para mim… comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…

 A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado—as tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos… Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!… O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

 Álvaro de Campos, 15-10-1929

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